Um amor estático flutua preguiçoso e adormecido a três palmos do meu travesseiro, quando é madrugada e tudo é sussurro. De onde te vejo a distancia parece relativamente maior. Pelas poucas linhas de luzes que se atrevem a te iluminar, desenho teu contorno. Traço com o dedo teu corpo. Lembranças e vontade brigam pelo primeiro lugar, me encolho do teu lado. Provo paciência. A página branca e tolerante de tecido freia um abraço. A distância é ríspida, a pretensão é forte. Meu escândalo não te alcança, é desespero invisível, controlado. É vontade de virar um, mas também de não. Insuportável é gostar sem ruído. Armazeno você num parágrafo, pra rabiscar mais tarde. Apagar mais tarde. Quando já for muito tarde. Muito tarde e adiável.
Minha manhã apática se embriaga de olhares perdidos. Nem sei o que miro. A madrugada deixa tudo cinza, um cinza bonito alinhado ao teu contorno. A janela trancada - nem o ar respira aqui dentro – e, quando percebo, perdi uma hora. Sessenta minutos de você, chumbo agarrado aos meus tornozelos. Olho o relógio mais uma vez, tento atrasa-lo. Enterro-me em silêncio, com teu abraço sonolento me trazendo pra perto.
A sua felicidade abafando qualquer coisa que tenha me dito ao despertar. Na surpresa de um convite aceito, em vez de te evitar. E quinta feira com gosto de sábado, sábado com seu cheiro ao passar pela porta de casa. Com teu olhar despretensioso. Teu riso frouxo e tua vontade. Mesma que a minha. Lembranças que invadem meu dia, freneticamente.
Talvez não caiba a mim encontrar o paradeiro do que havia perdido. É que ele não me escapou pelos dedos desatentos, não está ao relento entre o meio-fio e os carros, não se esvaiu junto às memórias de uma madrugada ébria. Me perfura os pulmões a constatação daquelas coisas que, mesmo quando assumidamente prováveis e esperadas, eu – ingenuamente – negava até o fim que pudessem acontecer: As piores verdades são aquelas que parecem mentira.